O ABISMO, A CRISE E A PONTE

Volta e meia começa a pipocar textos tratando do universo de problemas que existem no meio acadêmico. Sejam as crises e depressões dos pós-graduandos, a jornada sobrecarregada dos professores que precisam desempenhar de funções burocráticas à pesquisa de ponta, passando um bom tempo em sala de aula, claro, ou a falta de reconhecimento da profissão de cientista que deixa boa parte das pessoas que sustentam a ciência no país desamparadas quanto aos direitos trabalhistas. Estes são somente alguns dos pontos que podemos observar no emaranhado novelo de lã que não sabemos por onde agarrar para resolver.

O desenrolar do cenário atual não é muito promissor para quem quer ser professor universitário ou quer continuar fazendo ciência no país. Pelo menos neste ano, vagas em Universidades Federais estão fora de cogitação. Este fato só deixa mais agitado o mar de pessoas que terminam a pós-graduação e não sabem bem para onde correr além do bem trilhado caminho de concursos para professor universitário. O mercado de trabalho das empresas também não está muito aberto a acolher o perfil de pessoas trabalhadoras que saem da academia, o que aumenta o abismo entre a mão-de-obra qualificada (ergh) e funções que utilizem estes conhecimentos.

Você não está sozinho, marinheiro.

Na área de Biologia e Ecologia, que tenho maior conhecimento, a percepção dos profissionais destas áreas é de que existe um enorme gargalo, seja após terminar a graduação ou pós-graduação. E muito desta percepção tem seu fundamento, porque as opções de emprego formal não fogem muito as universidades, colégios, cursinhos, prefeituras, órgãos públicos ambientais, laboratórios, empresas de consultoria. Esse é o leque de opções que ronda a cabeça de boa parte dos biólogos e ecólogos. E não precisa dizer o quão limitado este leque é para a infinidade de temas que as ciências da natureza abarcam.

Não é necessário explicar o quanto os conhecimentos ecológicos, a intimidade com a natureza, em conhecer como ela funciona, se organiza, mantém seus organismos vivos e saudáveis é importante e urgente. As diferentes crises que a espécie humana enfrenta são apenas múltiplos aspectos de nossas falhas em perceber a forma limitada de se relacionar com nossos semelhantes e com o restante dos habitantes deste planeta. Uma visão escassa e exploratória que está dando conta de extinguir com milhares de espécies e que, se continuarmos desta forma, vai acabar com a nossa espécie também. E não há mecanismos de conservação e recuperação ambiental que serão capazes de estancar a hemorragia que causamos nos ambientes naturais. A transformação precisa acontecer em um âmbito muito mais basal, na cabeça e nos atos de cada um de nós. Inclusive na sua que está lendo e na minha que escreve este texto.

É aí que entra o exército de biólogos, ecólogos, agrônomos, aquicultores, engenheiros florestais, ambientais, de pesca, veterinários, oceanógrafos, entre muitos outros profissionais. Estas pessoas tem um vasto conhecimento para ser compartilhado com a sociedade, mas, em muitos casos, este conteúdo foi passado de uma maneira tão restrita a uma visão academicista que sentem dificuldades em criar pontes entre a teoria e a prática e viver disso. Além disso, poucos são os momentos em que a autonomia é incentivada dentro das salas de aula, o que dificulta o caminho para fora das universidades e empresas. Mas nada que uma boa motivação não seja suficiente para por a mão na cabeça e os dedos no teclado para buscar e aprender de maneira autodidata a desenvolver maior autonomia e gerar novas conexões entre os conteúdos.

Todos juntos?

De hortas urbanas a sistemas agroecológicos, passando pela ecologia profunda, biomimética e análises de ciclos de vida, poderemos desenvolver uma inteligência ecológica e sistêmica em todos os aspectos de criação e produção humana, obtendo processos e resultados mais eficientes e eficazes. Muitas pessoas sem a formação em áreas ambientais estão se aventurando por estes campos e despertando o interesse de mais e mais pessoas. Já passou da hora de pessoas especializadas fazerem o mesmo. Um bom caminho para por em prática esta caminhada é não atuar sozinho. Aprender a operar uma mente coletiva facilita muitos processos e os resultados costumam vir à tona com muito menos esforço, de forma emergente.

Que conexões invisíveis lhe sustentam?

A interdependência entre os seres vivos é tão grande que não nos damos conta de que não nos sustentamos sozinhos. Árvores, microorganismos, que estão na terra há muitos milhões de anos a mais que nossa espécie sabem muito bem o valor da cooperação. Nós, humanos, estamos engatinhando ainda e pensamos que somos sábios. O bom é que a ilusão do isolamento humano pode até ser muito convincente, mas não passa disso, uma ilusão. Então, em vez de esperar pelo próximo concurso, que tal juntar-se com aqueles amigos da universidade, criar uma ponte para uma nova forma de viver e trabalhar e construir relações mais sustentáveis?

Texto escrito pela Bióloga, Mestre e Doutoranda em Ecologia, Polliana Zocche de Souza, publicado originalmente no Medium.

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COMBATE AO ASSÉDIO NO MEIO ACADÊMICO

Imagine um estudante que apresenta um poster em uma reunião científica, feliz, quando um cientista sênior pára para ver o seu trabalho.Considerando a contínua sub-representação de mulheres em altos níveis da academia, são boas as chances que o cientista seja do sexo masculino.

Se o estudante também é do sexo masculino, ele provavelmente não tem dúvidas de que o cientista quer saber mais sobre a sua pesquisa. Se a aluna é do sexo feminino, ela pode se perguntar: “será que ele quer se familiarizar com o meu trabalho, ou comigo”?

Este é o cenário que Meg Urry da Universidade de Yale, atual presidente da American Astronomical Society, expôs durante uma sessão sobre ética denominada “Qual o papel das sociedades científicas em resposta ao assédio e outras questões climáticas no local de trabalho?” durante a Reunião da União Americana de Geofísica em dezembro de 2015.

As Sociedades científicas têm uma responsabilidade intrínseca a este respeito. Elas patrocinam reuniões, workshops, conferências, viagens de campo, e outra de eventos que colocam os cientistas em estreita proximidade por longas horas em ambientes incomuns.
Meg Urry falou sobre a responsabilidade das sociedades científicas na tomada de medidas em consequência do escândalo Geoff Marcy*, além dela, outros oradores deram excelentes sugestões para a promoção de um ambiente livre de assédio.

“Sociedades científicas precisam divulgar amplamente suas políticas que declaram intolerância para o assédio de qualquer espécie e as consequências em caso de transgressões dessas regras. Expulsão da sociedade? Dos eventos? Impedimento de bolsas e medalhas de honra? Impedimento de publicar em revistas da sociedade? Tais ações podem limitar o avanço profissional, especialmente quando o empregador institucional é lento ou de alguma forma impedido de tomar medidas concretas”.

Urry atribui a responsabilidade diretamente sobre cientistas seniores para as consequências de eventuais relações pessoais que se desenvolvam com os alunos, porque é sempre o aluno que paga o preço profissional, quando tais relações se desintegram.
Ela sugeriu que a menos que o cientista esteja disposto a mudar as instituição, a fim de evitar uma situação desconfortável para o aluno caso o relacionamento se dissolva, não se envolver com alunos. Muitas universidades proíbem expressamente qualquer relação entre professores e alunos de graduação.

Após as apresentações foi aberto para outras falas, a mais perturbadora foi de uma estudante estrangeira, que foi estudar nos Estados Unidos, relatando o comportamento de um colega.

Ela aproveitou-se de canais formais de sua instituição para levantar uma queixa, mas lhe disseram que ela deve ter interpretado mal o comportamento de seu colega, por causa de sua falta de familiaridade com a língua e a cultura do país. Como seu domínio de Inglês é excelente, ela perguntou se ela deveria gravar as conversas futuras para provar suas afirmações. Recebeu como resposta que seria ilegal!

Esta experiência ilustra a batalha contínua que as mulheres enfrentam para que suas preocupações e inquietações sejam tratadas com seriedade.

*Geoffrey Marcy teve o seu nome envolvido num escândalo de assédio sexual de pelo menos quatro antigas alunas suas na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, o que o obrigou a demitir-se tanto do cargo de professor como de investigador principal de um projeto multimilionário de procura de vida fora da Terra.

Texto original publicado no site da Revista Science.

Harvard e MIT disponibilizam cursos gratuitos

Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), disponibilizam mais de 800 cursos gratuitos. Além delas, as universidades Berkeley, Columbia, Boston, também oferecem cursos. As aulas abordam as mais diversas áreas do conhecimento, como tecnologia, empreendedorismo, ciência, história e psicologia.

edxWatermarkOs interessados não precisam se deslocar até os Estados Unidos para assistir as aulas dessas duas instituições consagradas. A plataforma edX disponibiliza os cursos online. A maioria dos cursos ofertados é em inglês. Para garantir o certificado é necessário pagar uma taxa que varia de acordo com o curso escolhido.

Confira abaixo algumas opções:
MIT – Tornando-se um Empreendedor
MIT – Introdução à Ciência da Computação e Programação Usando Phyton
MIT – Empreendedorismo: Quem é Seu Cliente?
MIT – Inovação: Um Caminho Para o Empreendedorismo
Harvard – Análise de Dados para Ciências da Vida
Harvard – Introdução à Ciência da Computação
Harvard – Os Fundamentos da Neurociência
Harvard – Análise de Dados – Estatística R
Harvard – Inovando em Saúde

Clique aqui, acesse a lista completa e bons estudos.

CONSULTORIA UNIVERSITÁRIA, O QUE VOCÊ PENSA SOBRE ISSO?

Texto escrito e enviado a nós por Eduardo Jorge Costa Mielke, possui pós-doutorado pela Leeds Metropolitan University (Inglaterra) e doutor em Turismo através do Programa de Doutorado em Gestión y Desarrollo Turístico Sostenible pela Universidad de Málaga (Espanha). O texto propõem uma reflexão sobre consultorias por parte das universidades como forma de prestação de serviços por estas.

Sou prof. Doutor e DE 40 horas em uma Universidade pública neste país. Gostaria de deixar aqui meu relato voluntário, sobre um tema para “provocar” uma reflexão…(Este texto vale para disciplinas, departamentos onde relações com o mercado são possíveis.) Uma das coisas que mais me deixa perplexo é o conceito imoral implantado e inserido na mente das IES (Instituição de Ensino Superior) públicas, quanto a prestação de serviços de consultoria. Falar sobre isso é quase que uma heresia. Universidade ganhar dinheiro? Credo, quase fui execrado …banido …”seu capitalista selvagem!!” A universidade, no imaginário da sociedade é onde estão ou transitam boa parte dos pensadores, intelectuais e de profissionais que entendem MUITO sobre um determinado assunto. Se alguém quer saber sobre uma espécie, um destino ou uma máquina, vai primeiramente nas IES buscar a informação desejada. Estamos lá para estudar, investigar e para darmos respostas, ou pelo menos ir atrás delas. Os recursos humanos presentes dentro de uma IES pública é inimaginável. O valor deste capital é imensurável. Há professores com um conhecimento que impressiona. Entretanto, por que que ela sempre deve responder a todas as perguntas de graça? Algumas são ok. Mas por exemplo: se um hotel me pergunta se deve instalar uma unidade num município, porque que eu devo dizer sim ou não, sem cobrar por esta “dica”? Afinal de contas, a escolha irá influenciar milhões de investimentos. Só por que o empresário paga os impostos dele, devemos atende-lo de graça? Ele consegue lograr o resultado e aquela “dica” não valeu nada? Tenho 12 anos de campo, décadas de estudo. E de graça, assim? Porque sou legal? Em 2010 fiz um pos doc fora e o Dpto da IES lá, faturou nada mas nada menos do 600 mil libras (4 milhões de reais hoje, em 21/02/16) somente prestando serviços de consultaria à empresas e para o governo. E tudo, absolutamente tudo foi para os cofres da universidade (como tem que ser), que com este recurso banca uma série de coisas, inclusive os bons equipamentos que utilizei lá. Destas consultorias, onde que via de regra alunos são envolvidos (remunerados, além das bolsas), tem-se a oportunidade de ter a realidade de fora dentro dos muros phdeusianos das IES. Tud$ p$r dentr$. Nada por fora. Tudo legal, tanto no sentido jurídico como moral. E isso que é o legal. Mas, aqui no Brasil pensar esta possibilidade e discutir isso, é imoral. Quase um crime hediondo. Esta estratégia que é normal lá fora, faz com que as universidades sejam legitimamente reconhecidas pela sociedade. Que elas possam virar referência mesmo de conhecimento e informação de ponta. Desta forma, podemos melhorar nossas aulas, nossa estrutura e principalmente nossos alunos (que por sua vez, aumentam a chances de fazerem Teses e Dissertações mais aplicáveis e mais aproveitáveis para sociedade como um todo…, e de quebra, de saírem empregados!). O mais curioso que dentro das IES brasileiras os recursos sempre foram escassos (conheço bem 3 delas em 3 UFs), onde boa parte daqueles “carinhas” ficam desempregados. Esta rejeição endêmica ao mercado traz uma verdadeira cegueira acadêmica que resulta justamente em publicações de Dissertações e Teses teóricas com títulos lúdicos, como por exemplo: Mesmo do Mesmo: desafios e perspectivas. Um mesmo Estudo de Caso do Mesmo Bairro..ou seja..Dá no mesmo.. Mesmo porque o sistema assim preconiza (como bem disse o texto sobre a falta de empregos para Doutores). Enquanto, as IES não realizarem que não estão dentro de muros invisíveis e não mudarem sua postura e política interna em relação ao mercado, seguiremos com o mesmo do mesmo. Sem competitividade, sem produção relevante. Aliás, as IES brasileiras não estão em posições do ranking que nos referendem como um país avançado, não é?
Pense nisso!

Abraço!

Autor: Eduardo Jorge Costa Mielke